sexta-feira, 23 de abril de 2010

gordinhos só se fodem



prefácio

eu aprendi a conviver com leo (e ele comigo) e não preciso ouvir um "obrigado", pra saber que ele me agradeceu, ou um "desculpa", pra saber que ele está arrependido. leo demonstra o que ele pensa de uma maneira clara, pra quem o conhece profundamente. e o pedido dele pra que eu faça o – possivelmente – primeiro prefácio da história da literatura da internet é, claramente, um agradecimento pelos quilos que eu o fiz perder.

tornar leo uma pessoa mais vertical e menos horizontal foi (e vem sendo) um trabalho duro, exaustivo e que consome minha paciência, pois transformar um cara criado numa casa onde a cozinheira é uma mulher vinda do interior do nordeste – e, portanto, digna de 3 estrelas michelin – num ex-gordo é uma experiência que deveria ser documentada em vídeos, fotos e relatórios.

o texto de leo é sincero porque é uma espécie de desabafo autobiográfico. leiam com bom humor e na esperança de que um dia ele diminuirá – ainda mais – sua superfície de contato.

sergio aires


capítulo 1 – festas e eventos sociais



se um magro come 234 coxinhas e 541 docinhos, tudo bem, mas se for um gordinho... aí já viu, né? gordinhos não podem comer nada em lugares com muitas pessoas, pois além da provável falta de habilidade manual – que poderá causar desastres no local – ele sempre será julgado, simplesmente por estar comendo. é quase uma lei impossível de ser cumprida para os gordinhos: não sentir fome fora de casa.

capítulo 2 – na prática de exercícios físicos



no futebol, há dois cenários: se você é dono da bola, poderá jogar na linha, mas caso não seja, é tiro certo que vai pro gol e passará por momentos embaraçosos, levando frangos e quedas terríveis. será um exercício físico e de destruição da pouca autoestima que o gordinho ainda possui. há também a visita à academia, sempre constrangedora. a sua camisa sempre será a mais suada e você poderá ter a certeza que sempre, sempre irão pensar algum comentário maldoso a seu respeito a partir do momento que você cruza a roleta da entrada (ambiente tenso, pois são raros os gordinhos que conseguem cruzá-la facilmente).

capítulo 3 – nos apelidos e comparativos



no social do dia-a-dia, surgirão os apelidos que sempre terminam com "inho(a)" (em contradição ao próprio tamanho do ser): gorinho, fofinho, bolinha, rolhinha, leitãozinho e por aí vai. se você é gordinho, também parecerá sempre com alguém, geralmente um ator famoso ou alguém que virou piada na internet. se você for gordinho e barbado, suas chances aumentarão. é como se os gordinhos fossem pessoas genéricas, preparadas sempre para serem comparadas com o que estiver no eixo ridículo-hit-do-entretenimento. já disseram que eu pareço com o cara acima, ainda bem que ele é fodão.

capítulo 4 – gordinho convivendo com gordinho



eu nunca tive amigos gordinhos, pelo que me lembre. acho que gordinhos gostam de andar com pessoas "normais". é mais ou menos a relação das mulheres feias que só têm amigas bonitas. uma complementa a outra. contudo, há um respeito mútuo entre os gordinhos, assim como há entre os barbados. ao se cruzarem, sempre rolará uma identificação visual entre os dois, mas ao contrário dos barbados, que se cumprimentam com um ar de superioridade intelectual, os gordinhos o fazem como um ato de companheirismo, onde o pensamento de ambos é "outro fracassado igual a mim, tenho pena dele também".

capítulo 5 – no sexo



e no sexo, então? só se fodem (no sentido ruim mesmo), claro. lembro que uma ex-namorada minha (na época que ainda não era namorada) sempre hesitava nos momentos mais calientes e eu ficava na dúvida: "que porra é essa? tô fedendo, por acaso?". então, certa vez ela me disse que não dava continuidade nos agarros porque pensava que eu tinha o pau pequeno. que merda, hein? perdi de transar com ela mais vezes – e nosso sexo era fenomenal, coisa de discovery channel – porque eu era gordinho e isso implicava em pau pequeno. são nesses momentos que os esteriótipos destroem a sua vida.

declaração final



são por esses motivos que estou tentando deixar de ser gordinho. lentamente, claro, se não eu não seria um true gordinho. se as batatas moçambicanas deixarem, perderei mais alguns quilos em breve, graças também aos 25 litros de chá verde que tomo diariamente e ao meu personal trainer serginho.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

prefira um bate-papo a uma reunião



em quase toda minha carreira profissional (muito bom falar isso), trabalhei em locais e funções que exigiam contato constante com os clientes, mas foi na rits que eu realmente senti na pele o que era ser "atendimento", por necessidade, já que meus outros sócios tinham que colocar a mão-na-massa e produzir os projetinhos que nos transformaram nos milionários que somos hoje. quem me conhece, sabe que não sou lá muito simpático e social, características importantíssimas para um bom baba ovo atendimento, mas acho que consegui me virar durante esses anos, não sem receber muitos comentários negativos, é claro.

lidei com todos os tipos de pessoas possíveis e imagináveis, em reuniões onde o teletransporte seria muito útil e outras muito boas. contudo, eram poucas as pessoas que eu gostava de estar próximo nesse mundo-business-do-inglês-sofisticado-e-termos-novos-que-falam-a-mesma-coisa-sempre. são as mesmas pessoas que eu conseguia ficar à vontade num bar e contar minha vida pessoal, sem ficar pensando antes de falar. pela manhã, nos reuníamos para pensar nas campanhas (e no real resultado que ela ia proporcionar) e à noite, estávamos enchendo a cara com bebidas fortes, da cachaça aos drinks com guarda-chuvazinho afrescalhado, motivo de malhação desenfreada. falávamos sobre tudo, sem frescura, trocando experiências que só a diferença de idades sabe fazer.

nunca precisei dar tapinhas nas costas, nem apertar a mão com um sorrisinho falso no rosto pra conseguir o que eu queria. sempre fui honesto comigo, com meus clientes e minha empresa. é uma boa obrigação que eu tenho com meu pai, que me fez um único pedido, quando eu era criança: "meu filho, só te peço uma coisa na vida: seja honesto". ser honesto dá trabalho e é muito abrangente, então é meio foda cumprir isso à risca, mas eu acho que entendi o recado dele.

o problema é quando você esbarra em pessoas que não gostam de honestidade e acham que fazer negócio é viver engravatado e falar bonito, ser um robô e ficar repetindo jargões idiotas, munidos de cartões de visitas que contenham palavras como "consultor" e "analista". pessoas que você não pode falar a palavra "bate-papo", pois o correto é "reunião"; que preferem viver em colunas sociais, posando para fotos narcisistas (sempre de ladinho) com pessoas que elas odeiam; que adoram fazer reuniões para apresentar idéias "geniais", pois é óbvio que entendem de todas as áreas do conhecimento; que não sabem segurar a onda do seu cargo e saem fudendo os que estão abaixo sempre que levam uma pancada vinda lá de cima; que vivem correndo atrás de cartões vips para festas da high society, pois estas são palcos para mostrarem o falso refinamento que possuem.

prefiro conviver com o cliente que me manda uma mensagem quando está cagando (sim, eu tenho clientes que fazem isso), dizendo que se lembrou de mim. prefiro aquele que eu posso ligar de manhã e dizer que não vou à reunião porque estou ressacado. prefiro o que confia no que eu digo, mesmo que não concorde à princípio, pois tem a básica noção de que se ele me paga é porque não sabe ou não entende do assunto tanto quanto eu. prefiro aquele que eu posso atender de bermuda e chinelo, pois sabe que eu sou calorento pra caralho e minha roupa não irá interferir em nada nas idéias. enfim, sou mais chegado aos que valorizam mais a representação da vida real do que os padrões chatos dos negócios e entendem que informalidade não é falta de profissionalismo.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

a mulher-calcinha-bege



mulher broxante é o pior mau que pode me ocorrer. é o tipo de coisa que me gera decepção como nenhuma outra, pois sempre me pega de surpresa. como sou otimista com as mulheres, utilizo sempre minha imaginação para acreditar que algumas me proporcionarão prazeres imensos, mas aí acabo trombando com uma mulher-calcinha-bege e isso tudo vai por água abaixo. são as mulheres que possuem um dom incrível em potencializar sua sem-gracice, principalmente em temas extremamente prazerosos: sexo, bebidas e música - a tríplice vitoriosa dos prazeres humanos.

sobre o sexo, evitam falar a respeito. acreditam que é algo muito individual, ou seja, uma contradição à própria condição do ato. nada bate, não tem lógica, não consigo entender. acho que nunca tiveram uma noite boa na cama (ou no carro ou no sofá ou no banheiro com a casa lotada de gente). nunca gozaram (ou pensaram que sim) e isso – ao menos isso – me alegra, pois sei que quando experimentarem esse ato tão egoísta, ficarão taradas. também tenho uma teoria (com um certo embasamento prático) de que mulher que transa "tarde demais" acaba virando uma viciada e insaciável e louca e bom-demais-isso-tudo. sexo é falta de educação para a mulheres-calcinha-bege. nada sabem sobre as fantasias masculinas em relação às colegiais.

na bebida, evitam chegar aos excessos. não podem "perder" o controle de seus atos, pois com isso também perderiam a sua hipocrisia (e elas são apegadas demais à ela). seria demais para a mulher-calcinha-bege contar às amigas - que são idênticas - como foi a noite anterior: perdeu a cabeça e transou com o homem-maravilhoso-e-sexy-que-estava-no-bar, este que acabara de conhecer. óbvio que não transará mais, pois como ela nunca falou de sexo e nunca teve experiências nessa área, por mais gostosa que ela seja, foi um fracasso na cama e o bonitão não ligará para ela hoje. será uma espécie de lição.

a música simplesmente não entendem. entender é diferente de gostar, que fique claro. ela é uma amiga do dia-a-dia que está ao meu lado sempre e não compreendê-la é o mesmo que apunhalar-me pelas costas e rodar o punhal 3 vezes. já dizia chavela vargas: "a música é o orgasmo universal". não entendê-la é a maneira mais rápida de me fazer broxar, perder o interesse, querer que a pessoa suma e nunca mais volte.